Olhar


Se eu pudesse caminhar com palavras tuas, se eu podesse falar-te, se tu pudesses ver-me se eu pudesse olhar. Nenhum impulso de escrita emerge do ilimite vazio. Se escrevo ou falo ainda é porque o sinto. Se olho, se prossigo sei que a minha sede não é vã, onde estou é na tua rua. Onde estás é além de todo o encontro. E se escrevo, é porque talvez espere avançar entre os meus muros, para um sinal que ilumine esta estrada. Se eu pudesse falar-te através destas palavras, se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar.

Reencontro


É no reencontro que se descobre. É no reencontro de palavras que se volta a lembrar. É no reencontro que aquela ausência indiferente passa a correspondência presente. Mas também se descobre. Descobre-se na música, na paz de espírito e depois quer-se mais. Não ficamos indiferentes ao reencontro. Aquele rosto nos era conhecido torna-se mais forte, mais presente. Contam-se memórias e desabafos. Histórias e curiosidades, numa tarde, numa noite. Descobre-se elementos tão importantes da nossa vida. Mas sem que, lentamente algo mais se despolete. Torna-se gradual e constante. Até que surge o já esperado desse reencontro. Trocam-se perfumes e músicas. Mas...não se vive o antes do reencontro. E por mais que seja forte, o antes vem sempre antes do depois. Percebo a força do antes. Sem que não queira que venha o depois...Encosto-me então na tua rua, como se tivesse à espera de outro teu reencontro.

Eis o Lugar


Sinto a perfeição de um corpo e nos seus olhos perpassa um pouco o medo. O medo de ser O Desconhecido, de ficarmos esquecidos na eternidade...Serei eu que tu vês? Quem me abraçou outro dia não é já quem me abraça? Sinto o não e o sim-A inflexão da noite. Vivo à superfície de um corpo negro e fundo. O amplexo é real e o que escrevo é a falta de algo que me completa. Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei. Tenho os os olhos fechados de abertos de ternura. Eis o lugar em que o centro se abre, onde sentimos a verdadeira ausência.

O Som do Buraco


Oiço o som do buraco, certas palavras despidas, certas palavras pobres: o som de um buraco. O sopro que ouvires, não o ouves, não e o sopro do horizonte. Aqui esqueceu-se o peso das pedras. Por isso outras palavras:as que sobram. Não as que restam. Não será um grito. Certas palavras, só. A quebra muda, nem sequer um baque. Produzem o som de um buraco. Entre nós. Certas palavras mais pobres, obsessivas. Persistem.

O Espaço


Como se fora este o espaço por habitar, não é aqui que se constroi o chão e o tecto, ligam-se externamente noutro espaço. Como se fora aqui, aqui começo nada ou só que desejo e perco. A folha branca sem a inspiração e sem a presença que sobre a presença se levanta num externo esforço além deste começo. Como se fora aqui o que figura azul e nulo esfuma, aqui me abro onde não sei se alguma palavra viva vem ou pobre domina. Aqui seria o rosto, o espaço, o lento manear de uma sombra a forma de um corpo se mover, oco do ser, e o desejo no centro do tempo e ânsia, a pausa justa de encontrar o termo, o intervalo do sorriso e a rua, viva com o teu rosto.

Dança


As tuas armas são lentas, defesas correspondem lúcidas reflectem. As tuas armas secretas e potentes. Serves-te como um sopro em corpo e firmas-te. As tuas palavras desligaram-se, o afecto já não entra no teu vocabulário. Tenho a febre alta, caminho no silêncio de ti. As tuas armas tecem no espaço as linhas de uma ausência. Desfaz uma a uma, a esperança que outrora culminara mas que sempre perdura. A tua vista alcança o ponto cego da luz. A linguagem é o silêncio sem eco. Tornaste-te num muro alto que já não vejo:o espaço nu. Deixa-me abater o muro.

Porta


Quando bate a uma porta a solidão

Uma porta e perguntas na noite

Quand toca a dura casca do teu nome na note

A uma porta de auseência

Uma porta de memórias

Quem bate a essa porta?

Quem bate a essa porta de ausência no noite?

Quem bate a essa porta és tu

Pulso


Onde é aqui o centro, onde se respira, a cama limpa o corpo inteiro e nu. Respira o ventre, a vela incha ao sol e ao mar sem fim.

Onde é aqui, a fome nua, o pulsar exacto no centro da alegria, a luz e o olhar aberto ao mar.

Onde é onde a mão sabe a carícia da anca e alíngua fabrica o seu sabor a querer mais. Onde o fogo acende o pulso de ti.

Do teu Calor


Do teu calor me nutro e nutrifico no silêncio da tua espera. Brilha o teu tecido. Há passo de mulher descalça. O mundo é novo. A terra é clara. Eu sou o home que te ama e escuta concentradanebte no teu calor. Oiço a tua unidade plural, tuas marcas fêmeas, tua elegância me nutrem, olhando-te. Construo uma palavra em teu ouvido, alimenta-me do teu mar! Renasço pouco a pouco no teu horizonte dado. Emoção no teu olhar, na tua língua. Constroi-me, construo-te, prazer puro criado.

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo.

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo(recordam-se vocês aí,
Escrupolosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill

O Jogo do Anjo


Soube então que dedicaria todos os minutos que nos restavam juntos a fazê-la feliz, a reparar o mal que lhe fizera e a devolver-lhe o que nunca soubera dar-lhe. Estas páginas serão a nossa memória até que o seu último suspiro se apague nos meus braços e eu a acompanhe mar adentro, onde a corrente rebenta, para mergulhar com ela para sempre e poder finalmente fugir para um lugar onde nem o céu nem o inferno possam alguma vez encontrar-nos.

Carlos Ruiz Zaffon

Encontrar-te


A nudez da palavra que te despe

Que fortifica, corre

Com os olhos dela te quero ver

Que não te vejo

Boca na boca através de que boca

posso eu abrir-te e ver-te?

É meu receio que escreve e não o gosto

Do sol ver-te?

Todo o espaço dou ao espelho vivo

E de ti o escuto

Silêncio de vertigem, grito ao alto

És palavra

À beira de nasceres tua boca toco

E o beijo e já encontrar-te

Grito ao Amor


Mas agora estou no intervalo em que toda a sombra é fria e todo o sangue é puro. Escrevo para não viver sem espaço, para que o corpo não morra na sombra fria. Sou a pobreza ilimitada de uma página. Sou um corpo abandonado. A margem sem respiração. Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe a ciência certa da navegação no espaço, o corpo abre-se ao dia, círculo do próprio dia, o corpo pode vencer a fria sombra da noite. Todas as palavras se iluminam ao lume certo do corpo que se despe, todas as palavras ficam nuas na tua sombra ardente. É urgente o amor. Agora. Espontâneo e mutuo. Para que a pobreza enriqueça em infinitas páginas, para que o corpo abandonado se torne fértil e dê frutos, para que a margem se respiração se torne oceano e nade até à tona da água para poder encher os pulmões de ar, para gritar bem alto a nossa Unidade.

Tramontana


Podes levar os dias que trouxeste.
Sem lugar, um homem cega pela janela, o mar que jura ter tocado com o sangue.
Podia ter sido o amor se não tivesse vindo tão directa,emte da sede, um duplo rosto, e os braços que saíram desertos, o eco da morte reverbera na pele com que veja a tua ausência encher as ruas. Um choro cai pela terra e nunca foi tão tarde ser depois.
Daqui onde o grito surdo incendeia, a refutação da madrugada, donde o crânio esmaga o coração, um homem conta pela janela a própria certeza de ter sido.

Não é tarde demais para uma manhã que foi a enterrar em tantas noites.

As escadas morreram de sede, a terra caiu em nunca.

Podes levar os dias que trouxeste.
Queria morrer contigo, não queria morrer de ti.
Contra o corpo limite do dia, arder tudo onde o tempo acabava, começar Deus onde era o fim. A noite tem a espessura, o medo abraça-me, a boca beija o batimento da terra.

E ainda é tão cedo para que morramos os dois.

Voo


Os teus sonhos de atravessar maresia

Vígio vazio para ser manhã

Os gritos roucos do coração lançando

Breve frio atado ao infinito

O sol das noites sorri à tua felicidade

Arde a mente nos lugares do corpo

Os abismos beijam-se

O tempo escorre de mãos dadas

As ondas embalam a infância

E surdem no silèncio, rasgadas as palavras

O peso eterno dos lençois de mármore

Traz-me berço à morte de estar vivo

Unidade e Corpo


Houve antes e haverá depois. Quando inicia, sopra-se a sombra, é uma absoluta verdade que principia sempre. Ao virar do livro, a página está cheia, cheia de histórias. A luz banha a solidão e um beijo emerge. O sangue tumultua, respira o mar suave. Onde começa o sangue? Um corpo está na unidade, corpo e unidade envolvem-se na paixão mútua que renasce, de dentro e fora, una. A unidade que se alarga e que respira é corpo. O corpo que ondula e se prolonga é unidade. O olhar alarga a unidade, a unidade estende o corpo. Um corpo intenso cresce em unidade viva. Nudez de unidade e corpo. Um ar só comunica sem dentro e fora. O sangue está na unidade.

Chama


Sobre a tentaviva nunca vã...O equilíbrio da alma na sua plenitude, a paciência, o teu rosto e a calma força que sobe e que modelas pedaço a pedaço. A tua casa habita entre o dia e a noite. Entre a calma e o lugar, o movimento é livre. Acordar a leve chama, veia a veia, erguê-la do fundo e soltá-la, propagá-la.

Amigos


Gosto deste instante que antecede a chegada dos amigos. Antes dos risos, das palavras, das gargalhadas, há um momento particularmente silencioso onde a beleza do lugar resplandece num brilho especial. Como se tudo tivesse sido limpo com maior cuidado, desde as árvores à brisa morna do entardecer.

O Amor e o Sonho


Há sempre, em todos os sonhos, um caminho infinito, que nos leva, entre maravilhas, ao lugar que a nossa imaginação consegue inventar. Todos trazemos na alma a nostalgia do paraíso perdido e tudo o que nos aproxime dessa recordação primordial nos imerge num bem-estar quase insustentável. É quando o coração se aquieta e os olhos se fecham que podemos ouvir o murmúrio da melodia do silêncio. É quando conseguimos abstrair-nos da realidade que nos cerca e acreditamos que há algo mais à nossa espera, que o espírito se inunda de luz e o corpo flutua, impoderável, acima do chão. No amor também é assim. Quando o coração perde a voz para ouvir apenas o seu próprio batimento e esse é o ritmo do corpo que se entrega, sem tempo, sem culpa e sem pressa e corta todas as amarras para seguir o tal caminho que nos leva, entre maravilhas, ao lugar mágico que a nossa imaginação consegue inventar. O amor e o sonho, na senda dos milagres. O amor e o sonho. Sem eles, qual o sabor da vida?

A Força da Imaginação


Na cidade saimos de casa para a confusão das ruas, o trânsito, as pessoas apressadas, as sirenes das ambulâncias e ficamos a pensar se já não haverá no Mundo pedaços de paraíso. Há. É so imaginá-los. De olhos fechados começamos por ouvir outros sons e logo nos sentimos invadidos por uma frescura de outras paragens. Que recanto da nossa alma vive na nostalgia do mais antigo? Quem de nós ouve o silêncio inicial? É so imaginar. Porque esse lugar está dentro de nós. Acompanha-nos sempre, fechado na nossa memória profunda e colectiva e é de lá, que, noas horas dificíes, vamos buscar a frescura, o silêncio, a poesia, os sonhos. É lá que nos recolhemos para fugir ao cansaço da rotina, aos contratempos da vida. É so imaginar.

Unidade II


Se o que procuras é a visão zul e branca do silêncio, se o que buscas é a dimensão infinita da alma em contraste com a pequenez do corpo, descobre a tua unidade. Esta só se consegue harmonizando o espiríto com a criação inical, os quatro elementos, a voz silenciosa mas tão expressiva da tua unidade. Poderão assustar-te as formas invulgares que por vezes toma. Mas nada temas. Esquece os medos aprendidos. E se quiseres falares com ela, vais ter de desatar todos os nós. Todos os nós do coração que te magoam, que te escravizam, que te amarram a um mundo sem grandeza e esperança. E se conseguires esvaziar os bolsos da alma, se conseguires abrir-te ao impoderável, a solidão que a princípio te cegava transfigura-se na unidade desejada.

O Mar

- Pai, o que é o mar?
- O mar? Não há coração que aguente a beleza dessa extensão azul, que respira aos nossos pés, como um bicho adormecido ou uma alma inquieta. Agora azul, agora calmo, agora convidando-nos a mergulhar, a receber os seus afagos, logo tenebroso, cinzento, verde-escuro, repelindo-nos com fúria, ameaçando-nos com ódio. Cheio de segredos e de seres inacreditáveis, de formas alucinadas ou grotescas, deslumbrantes ou assustadoras. Dono do sal e do peixe, dos tesouros afundados que avarmente esconde. Tão maravilhoso que os olhos se perdem na sua vastidão até ao horizonte e dá-nos este desejo de partir, esta saudade ao contrário, do que ainda não vivemos. O mar chamando-nos. Tão azul e tão nosso, que todos nos sentimos com direitos adquiridos sobre o seu corpo tentador, desde que uns loucos se atreveram a tentar dominá-lo. E contra ventos e marés apontaram o desconhecido, porque a voz do mar os chamava e os compelia a ir além.
- Pai, mas o que é o mar?
- Olha para dentro de ti e terás a resposta, tanta água, tanto sal, tanto sonho, tanto mal e tanto bem. O mar é tão profundo e instável como o coração do Homem.

- Pai, quero ser barco.

O ínicio


Ao princípio é apenas um rumor alegre da alma, uma urgência risonha. Depois insiste. Incomoda. Acorda. É insónia e traz palavras que vestem a ideia. É inevitável escrever, mesmo que não possas, que não tenhas tempo, que estejas refém de outro trabalho. Sabes que entregar-te à pressão interior é navegar para outro plano onde tudo o que antes parecia inadiável perde importância e contorno. Inadiável é a escrita. E vais ao seu encontro nessa outra dimensão da escrita mais primórdia e actual.

Sinestesia


Sempre tentamos viver o melhor possível, é isto que está na origem da mais profunda das guerras, mas a procura metódica do bem-estar, transformou-se numa realidade. Alimentar a alma com ingredientes que favorecem o interior, depende das nossas escolhas. Nada somos sem os sentidos. Eles captam o mundo que os rodeia, comportamentos e disposição. Quem tem a capacidade de as abstrair, torna-se um, em sintonia com o próprio Mundo. É difícil atribuir um grau de importância a qualquer um dos sentidos, porque eles funcionam de forma integrada numa sinestesia que nenhum sentido pode captar sozinho.

A Terra


As palavras esperam o sono, e a música do sangue sobre as faces corre, a primeira luz surge. A terra em teus braços é grande, o teu centro desenvolve-a, uma respiração na sombra, o calor do corpo. Há um olhar que entra pelas paredes da Terra, sem lampâdas cresce, esta luz da manhã, começo a entender o silêncio sem tempo, a paixão que se alonga. Estou deitado em ti como na Terra. Respiro a suavidade de um monte. Pelo muito que ouço, pela simples paz que me trazes, pelo dia que nasce. Pela hora vagarosa, pela tua mãoo, pelas ondas do teu corpo. Pela tua invenção e pela paz que dorma.

A Voz do Silêncio


Oiço-te ampla sobre os ruídos. Vejo-te abundamente e minha sede cresce, renascente já. Quero reconhecer-me em ti. Entrego-me sem espelhos, no abraço me envolvo e te circundo. Aconteceram hoje palavras de silêncio. Aconteceram palavras que disseram infinitos sentidos. É sobre o silêncio altivo, e sobre a noite, sobre o ventre, sobre a luz do corpo exacto que a respiração ofegante grita os sonhos conjugados.

O Sonho


Os nossos sonhos são um reflexo daquilo que somos e pensamos. Porque vemos tão desfocadas e tão nítidas as imagens do sonho? A consciência sobrenatural sobrepõe-se sobre o óbvio e vai para além da percepção humna. Podemos tentar percebe-los e até podemos interpretá-los, mas tem inúmeros sentidos e caminhos ao ponto de podermos sonhar no próprio sonho. Não há limites nem impossível, parece tão real que nem é ilusão, é realidade pura da nossa imaginação e sentimentos. Podemos controlá-los? Será que algum dia podemos identificar alguém pela substância so sonho? Nem nós sabemos o que distingue o transcendente do puro no sono profundo. O que me garante que o sonho não é apenas o único momento de lucidez que temos? A verdadeira verdade. O que é o sonho afinal? É o único sítio ond ninguém pode entrar, só no subconsciente de nós próprios. O sonho é o único lugar onde a imaginação é real e a realidade é imaginada.

Um Pouco De...


Tudo é atravessado por um rio de memórias, e brisas subtis e lentas se cruzam. E enquanto lá fora baloiçam, a saudade invade o quarto. Pairo no espaço vazio à contra-luz que desliza torturamente no meu corpo. Pára devagar entre cantos escuros, durante um longo momento transpõe a tua imagem em memórias tuas. O tempo não é dissolvido, mas dura, e em cada instante ressoa-me como um beijo perdido. De cima a baixo se descobre ao transpor o limiar sagrado da tua falta. Sinto...Estou e num breve instante sinto, sinto-me tudo até ao longo...Respiro até à exaustão. Nada me alimenta. Eleva-se o meu coração sem peso como a desamparada pluma. Na distância que percorro eu mudo de ser, permuto de existência. E no avesso das palavras, na contrária face da minha solidão eu te amei e acaraciei o teu imperceptível crescer como carne da lua nos nocturnos lábios entreabertos. E amei-te sem saberes. Amei-te sem o saber. Amando de te procurar. No contorno do fogo desenhei o teu rosto e para te reconhecer mudei de corpo, troquei de noites e juntei crepusculo e alvorada. Para me acostumar agora à tua ausência. E o sangue derramado fora de mim, procorou o teu coração primeiro.

Companheiros

Quero escrever-me de homem
Quero calçar-me de terra
Quero ser
A estrada marinha
Que nos segue depois do último caminho

E quando ficar sem mim
Não terei escrito
Senão por vós
Irmãos de um sonho
Por vós
Que não sereis derrotados

Deixo-vos
A paciência dos rios
A idade dos livros que não desfolham

Mas não levo
Mapa nem bússola
Porque andei sempre
Sobre meus pés
E doeu-me às vezes viver

Hei-de inventar
Um verso que vos faça justiça

Por agora
Basta o arco-iris
Em que vos sonha

Basta-me saber que viveis
Por viverdes de menos
Mas que permaneceis sem preço

Companheiros

Súbito


Fui sabendo de mim por aquilo que perdia. Pedaços que saíram de mim com o mistério de serem muitos e perceber o verdadeiro valor só quando os perco. Fui ficando por céus aquém do passo que nunca ousei. À ternura pouca que me vou acostumando enquanto me adeio servente de danos e enganos. Vou perdendo memória na súbita lentidão de um destino que me vai sendo escasso.

Ânsia

Não me deixem tranquilo
Não me guardem segredo
Eu quero a ânsia da onda
O eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
Doi-me o tempo
Ainda que não o mereça
Que eu quero
Ter outra vez
Idades que nunca tive
Eu e a vida
Nessa dença desencontrada
Como se de corpos
Tivéssemos trocado
Para morrer vivendo

Círculo Azul do Tempo


O renascimento surge de formas ocultas a quem não sente verdadeiramente as feridas do tempo. É claro e mais translúcido que o próprio nascimento. É a reunião de todos os sentimentos já vividos. Mas estes são mais sublimes. Mais conhecedores do espelho em que nos vemos todas as madrugadas até ao lento círculo azul do tempo.

A Lentidão das Fontes


Vazaram-se as luas da savana
Ossadas pálidas emigraram
Dos corpos para o chão
Ajoelharam-se os bois
Exaustos de carregarem o sol
Escureceram as horas
Nomeadas pela fome
Extingui-se o sangue da terra
Esvaiu-se o leito
Num coágulo de saudade

Restam troncos
Sustendo gemidos
Mães oblíquas
Sobrando migalhas
Mendigando crenças
Para salvar os filhos já quase terrestres

Quem protege estes meninos
Feitos da chuva que não veio?
Que casa lhes havemos de dar?

Amanhã quando se entossoarem os cânticos do céu
As aves voltarão a roçar a lua
E as cigarras de novo espalharão seu canto

Mas dos meninos
Talhados a golpes de poeira
Quantos restarão
Para saudar o amanhecer dos frutos?

O Mundo-Tempo


Não me ocupava ainda de ser, e já a vida decidira da minha posse. E o tempo não se disperdiçou nas pequenas fracções de mim, sob os meus passos se deteve dúvida alguma. O Mundo, depois destes dias, abrira o seu peito e os homens estreitaram-se e segredaram-se na cabeceira deste tempo e à poesia pediram que lhe fosse grata que me mantivesse pura, mas a palavra não se deteve nem se calculou na matemática da conveneência. É já tempo de um outro tempo. E a poesia convoca os seus soldados e nos bunkers da imaginação se abriram as portas da verdade. Assim mesmo quando a solidão me condecorou com a medalha da ausência as palavras que traduzira no idioma da vida. Porque é só quando sentimos o peso do tempo, que por vezes, sentimos o peso mais pesado. O verdadeiro valor do que nos é mais precioso.

Ave Negra


Começo a chorae do que não finjo porque me vi de caminhos por onde nunca fui e regressei sem ter nunca partido para o norte aceso no arremesso da esperança. Nessas noites em que da sombra me disfarcei e incitei os objectos na procura de outra cor, encoragei-me a um luar sem pausa. E vencendo o temoi que se faz tarde disse: o meu corpo começa aqui e apontei para o nada...porque me havia convertido ao sonho de ser igual aos que não são nunca iguais. Faltou-me viver onde estava, mas ensinei-me a não estar completamente onde estive, e a cidade dormindo em mim não me ouviu entrar na cidade que em mim despertava. Houve lágrimas que não matei porque me fiz de gestos que não prometi. E na noite abrindo-me como toalha generosa servi-me do meu desassossego e assim me acrescentei.

Voz da Infância


Sou agora menos eu. E os sonhos que sonhara ter, acordaram em teu leito. Que me dera acontecer essa morte, de que não se morre. Porque em tempos perdi a audácia do meu próprio destino, saltando a ânsia. E agora sinto. Sofro do que não sofri. E anoiteço, vivendo na vida os erros que me desertaram. Ofereço o mar que em mim se abre à viagem mil vezes adiada. De quando em quando me perco e de mim me desencontro, como se o eco das mãos e a casa dos gestos, me olhassem com todos os olhos opacos e vazios. Assim me debruço. Sobre a janela e escolho a minha própria neblina que me permite ouvir o leve respirar das pequenas coisas sepultadas em silêncio. E eu invento o que escrevo, escrevendo para me inventar e tudo me acorda, porque tudo desperta a secreta voz da infância.

O Desejo de Ser

Entre o desejo de ser
E o receio de parecer
O tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
A aventura de sermos nós
Restitui-nos ao ser
Que sempre fomos.

Aproximo-me da noite, e o silêncio abre os seus passos escuros, como que um buraco que absurve escuridão e luz. Esta deveria ser a hora em que me recolheria como um poente no bater do teu peito. Mas a solidão entra pelos meus vidros e nas suas mãos solto o meu delírio. É então que surges, com teus passos de Mulher, os teus sonhos guiando-me por corredores infinitos e regressando aos espelhos onde a vida te encarou.

Um Poema me rezou

Para que Deus me escrevesse
Entortei as linhas do tempo

Passaram os sete dias do infinito
E Deus não me palavreou

Nessa espera
Sonhei de vês
E divinizei a palavra

Como Deus me sempre desedenreçou
Fui caindo em desabismos
Desguarnecido de anjo
E em tudo quanto fui
Só demónio me guardou

Então veio a suspeita
Deus já não acredita em nada?

Até que, certa vez
Um poema me rezou
E assim me confortei
A justa palavra
Talvez restasse a crença
De um Deus em nós

Pedi licença à morte
Pedi perdão à vida
Mas não tive notícia
De quem eu queria que me salvasse

E ainda hoje
Só quem reza
Lê as linhas entortadas da poesia

Pergunta-me


Pergunta-me, se ainda és o meu fogo, se acendas ainda o minuto de cinza. Se despertas a ave magoada que cai no ramo do meu sangue. Pergunta-me se o vento não traz nada, se o vento tudo arrasta. Se na quietude do lar repousam a fúria de mil raios. Pergunta-me se te voltei a encontrar, de todas as vezes que me detive junto das pontes enevoadas, e se eras tu, quem eu via, na infinita dispersão do meu ser. Se eras tu que reunias pedaços do meu poema, reconstruíndo a folha rasgada na minha mão crente. Qualquer coisa, pergunta-me qualquer coisa, uma tolice, um mistério indecifrável, simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber, para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer.

Um dia...


Magoa-me a saudade do sobressalto dos corpos, ferindo-se de ternura. Doi-me a distância lembrança do teu vestido caindo aos nossos pés. Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava como o sol ocupa o mar como a luz reconlhendo-se nas pupilas desatentas. Seja eu de novo tua sombra, teu desejo, tua noite sem remédio, tua virtude, tua carência. Eu que longe de ti sou fraco, eu que já fui água, sou agora gota trémula. Traz de novo a transparência de água. Dá ocupação à minha ternura vadia, mergulha os teus dedos no feitiço do meu peito e espanta a maneira a que sempre renunciaste e volta a ser aquilo que foste um dia.

Tanta


Hoje cheguei e não havia o teu sonho reconfortando-me. Fiquei triste e sem coragem. Não é possível tu estares comigo e isso rouba-me o coração. Este desejo de te querer junto a mim é um desejo egoísta, eu sei. Faço-te esta confissão de egoísmo para que saibas, que te amo de todas as maneiras que sei amar. E mesmo assim sinto que não sei amar, que me falta estar vivo. Quero que respeites esta insuficiente maneira de amar de mim. E que me recordes por trás de cada coisa transformada há sempre uma gota de sangue:Tudo resulta da luta, mesmo que essa luta tenha sido apenas interior e aparente.

Troço


Lágrimas soltaram-se dos teus dedos quando anunciaste este troço de tempo. E eu que habitara lugares secretos e me embriagara com os teus gestos, recolhi as palavras vagabundas como a tempestade que engole os barcos porque ama os pescadores. Impossível agora que gravaste o teu sabor sobre o súbito e infinito parto do tempo. Por isso te toco, no chão e na terra, na poeira e da luz a minha mão reconhece a tua face idilíca. E quando o Mundo suspira exausto e desfila entre ondas e ruas eu escuto sempre a voz que é embalada do dia à noite perdida no tempo.

Carta aos amigos mortos


Eis que morrestes, agora já não bate o vosso coração cujo bater dava ritmo e esperança ao meu viver. Agora estais perdidos para mim-o olhar não atravessa essa distância-Nem irei procurar-vos pois não sou Orpheu, tendo escolhido para mim estar presente aqui onde estou vivo. Eu vos desejo paz nesse caminho fora do mundo que respiro e vivo. Porém aqui eu escolhi viver. Nada me resta senão país de dor e incerteza. Aqui eu escolhi permancer, onde a visão é dura e mais dificil. Aqui me resra apenas fazer frente ao rosto sujo do ódio e da injustiça. A lucidez me serve para ver. A cidade a cair por muro e as faces a morrerem uma a uma. E a morte que me conta, ela me ensina que o sinal do Homem não é uma coluna. E eu vos peço por este amor cortado, que vos lembreis de mim lá onde o amor já não pode morrer sem ser quebrado. Que o vosso coração que já não bate, o tempo denso de sangue e de saudade, nos vive a perfeição da claridade. Se compadeça de mim e de meu pranto. Se compadeça de mim e de meu canto.

Suave


Diz o meu nome, pronuncia-o como se as sílabas te beijassem os lábios, sopra-o com a suavidade de uma confidência para que o escuro apeteça, para que se desatem os teus cabelos, para que aconteça... Porque sou eu dentro de ti que bebe a última gota e te conduzo a um lugar sem tempo nem contorno. Porque apenas para os teus olhos sou gesto e cor, e dentro de ti me recolho, exausto dos combates que a mim próprio venci. Porque a mina mão procura o interior e o avesso da aparência, porque o que vivo, morre de ser ontem. Inventar, outra maneira de navegar, putro rumo e pulsar para dar esperança aos portos que aguardaram pensativos. No centro da noite diz o meu nome, como se fosse da primeira vez, da mais antiga diferença simétrica e me sobressalte, quando suavemente pronunciares o meu nome.

Quo vadis?


Quo vadis? Status quo, habeas corpus carpe diem. Quo vadis? Cogito ergo sum, habeas corpus acta alea est, bona fide fiat lux.

Antologia


Voltar a percorrer o imenso dos caminhos, reencontrar a palavra sem endereço e contra o peito insuficiente, oferecer a lágrima que não nos defende. Recolher as marcas, os sinais passageiros da loucura e adormecer pela derradeira vez nos lençois que anoitecemos. Reencontrar secretamente o fugaz encanto, o perfeito momento em que a carne tocou a fonte, e o sangue fora de mim, procorou o teu coração primeiro.

Relógio


Nenhum igual àquele. A hora no pulso é furtiva e calma, a hora na incidência da luz é silenciosa. Impossível dormir, se não a escuto. Ficar acordado sem a sua batida. Cada hora é fixada no ar, na alma continuando a sonhar...onde não há mais ninguém, ela chefa e sente a melodia da noite. Som para ser ouvido do tempo da vida. Imenso no pulso, este relógio vive comigo.

Comboio Mágico


Há algo de mágico naquele comboio. As velhas linhas férreas até ao horizonte. Quando se entra na estação surge sempre das falhas entre o comboio e o chão aquele nevoeiro rasteiro circulante que arrepia e com um frio característico de viagem. Desde o início até ao destino pretendendido aquele som, quase melódico do peso do comboio sobre o caminho a tomar. E pela janela podemos ver o nosso reflexo à noite, porém de dia vemos para o outro lado da nostalgia, uma luz eterna de viagem.

La magique Edith Piaf

Cet air qui m'obsède jour et nuit
Cet air n'est pas né d'aujourd'hui
Il vient d'aussi loin que je viens
Traîné par cent mille musiciens
Un jour cet air me rendra folle
Cent fois j'ai voulu dire pourquoi
Mais il m'a coupé la parole
Il parle toujours avant moi
Et sa voix couvre ma voix
Padam...padam...padam...
Il arrive en courant derrière moi
Padam...padam...padam...
Il me fait le coup du souviens-toi
Padam...padam...padam...
C'est un air qui me montre du doigt
Et je traîne après moi comme un drôle d'erreur
Cet air qui sait tout par cœur
Il dit: "Rappelle-toi tes amours
Rappelle-toi puisque c'est ton tour
'y a pas d'raison pour qu'tu n'pleures pas
Avec tes souvenirs sur les bras...
" Et moi je revois ceux qui restent
Mes vingt ans font battre tambour
Je vois s'entrebattre des gestes
Toute la comédie des amours
Sur cet air qui va toujours
Padam...padam...padam...
Des "je t'aime" de quatorze-juillet
Padam...padam...padam...
Des "toujours" qu'on achète au rabais
Padam...padam...padam...
Des "veux-tu" en voilà par paquets
Et tout ça pour tomber juste au coin d'la rue
Sur l'air qui m'a reconnue
...
Écoutez le chahut qu'il me fait
...
Comme si tout mon passé défilait
...
Faut garder du chagrin pour après
J'en ai tout un solfège sur cet air qui bat...
Qui bat comme un cœur de bois...

Gota

Penetra na pele
O negro mais negro
Do que já foi
Se o que em ti
Tem outro verso
Que rasgues com a
Mais afiada faca

Cara memória
Que no primitivo
Escrever era o refúgio
Onde abrigavas
Gota de compreensão

A Saudade vem enrolada
Em misteriosos trejeitod
E bate sem avisar.

Que ser?


Nada grita tão frio
Como a mais cruel sensação
Do sonho real
Esquecido no chão dos imortais

Sabe-se que transmite medo
Alegria, desejo ou ira
Mas este, de todas as percepções
Desejo que seja mentira

Ver-te entre outros versos
Ou amares mais
É a sintonia desfeita
Inquebrável, porém partida

Sabes o que é querer voltar ao toque?
Para remediar a frieza
Mostrar-te o verdadeiro sentimento
Que não sei exprimir

Tive esta opurtunidade...
Quer ser sou eu?
Que nem capaz de demonstrar amor sou?
Sei, mas não de maneira que te completa

Não consigo imaginar
Nem visualizar
Tiraram-te a flor que não eu...
Agarrares o corpo e dizer que amas
Soltares os orgasmos
Que não foram soltos
Que te entregues totalmente

A Janela Existe


Janelas que espelham o que é nosso. Espeham tudo. Nosso medo, nosso choro, molduras para os espaços ambíguos que aceitam enquadrar-se pelo tempo de uma contemplação. À flor da janela, uma imaginação encostou para acenar a outra. A janela está à frente e por detrás dela, não há detrás, há outra janela, e outra e outra. No mesmo enquadramento, na mesma dimensão num plano único. A janela está suspensa no espaço, guarda-vento para não entrar nem sair. Não precisamos que nos batam com ela, que para quem respira o mesmo ar, A Janela Existe.

Daqui


Bate à porta...porém fui abrir e nada. Cardíaco e melancólico ronca entre desejos. Pulou o muro e subiu à árvore em tempo de trepar. Daqui vejo vejo o sangue espalhado, renascido, mas às vezes nunca sara. Daqui vejo almas, vejo beijos que se beijam e ouço mãos que se tocam e que viajam em mapa. Vejo muitas outras coisas que não ouso compreender...Vozes que ouvi, entre grades solenes de êxtase. Talvez no território acusado entre a espuma, onde respira uma criança apenas. E que presságios viu desenrolar! Hora infinda sepultada na mais sargente areia que os pés pisam, pisam e que por sua vez desaparecem. De novo essas vozes...Não as escondas, guarda-as em tom sagrado ou grita-as em tom do Mundo. O ar crispa-se de ouvi-las e para além do tempo que ressoam, remos batem a água transfigurada. Correntes tombam. Eis que ressurge o antigo, o novo; o que do nada extrai vida, de verdade que nutre. Eis que a posse abolida na de hoje reflete-se e quantos desses diam soluçaram e que habitam e soluçam.

Ítaca

Quando abalares, de ida para Ítaca,
Faz votos por que seja longa a viagem,
Cheia de aventuras, cheia de experiências.
E quanto aos Lestrigões, quanto aos Ciclopes,
O irado Poséidon, não os temas,
Disso não verás nunca no caminho,
Se o teu pensar guardares alto, e uma nobre
Emoção tocar tua mente e corpo.
E nem os Lestrigões, nem os Ciclopes,
Nem o fero Poséidon hás­‑de ver,
Se dentro d'alma não os transportares,
Se não tos puser a alma à tua frente.

Faz votos por que seja longa a viagem.
As manhãs de verão que sejam muitas
Em que o prazer te invada e a alegria
Ao entrares em portos nunca vistos;
Hás­‑de parar nas lojas dos fenícios
Para mercar os mais belos artigos:
Ébano, corais, âmbar, madrepérolas,
E sensuais perfumes de todas as sortes,
E quanto houver de aromas deleitosos;
Vai a muitas cidades do Egipto
Aprender e aprender com os doutores.

Ítaca guarda sempre em tua mente.
Hás­‑de lá chegar, é o teu destino.
Mas a viagem, não a apresses nunca.
Melhor será que muitos anos dure
E que já velho aportes à tua ilha
Rico do que ganhaste no caminho
Não esperando de Ítaca riquezas.

Ítaca te deu essa bela viagem.
Sem ela não te punhas a caminho.
Não tem, porém, mais nada que te dar.

E se a fores achar pobre, não te enganou.
Tão sábio te tornaste, tão experiente,
Que percebes enfim que significam Ítacas.


Cavafy

Paixão


Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de falta de algo. Minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Provisoriamente não cantámos a paixão que se refugiou no subterrâneo. Cantarei o medo que esteriliza a falta de ter. Não cantares a falta de não ter, porque essa cantada nada enaltece. É tempo de encontro. É tempo de partilha. Querer mais no vestido branco e rosa que cobre a imensa paixão. A escuridão não se estende, vai-se iluminando nas nossas mãos, pois estas são as partes mais íntimas, a paixão, a pulsação e o ar da unidade é estrumamente necessário para continuar naquela não coincidência. Tempo de cinco (ou mais) sentidos num só. Voar sobre tempo perdido e abraçar o agora nos porões e histórias da paixão.